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domingo, 2 de julho de 2017

A poesia depois do silêncio

SS
A oralidade era a viva-cor, o mastro maior onde Aderaldo Ferreira de Araújo (1878-1967) depositava seu espírito criativo. Posto que, nos meandros erráticos de sua trajetória pessoal, a voz era instrumento de sobrevivência, artística e humana. Tornou-o imortal na seara de contar o mundo, cantar a vida.
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Não era mecanismo único, no entanto. O cavaquinho que ganhou da mãe, ainda jovem, era amigo-irmão inseparável. Ganhou porque mereceu e era preciso: tinha talento nato em entoar cânticos, o que, por um tempo, garantiu o sustento da família. Fez-lhe, inclusive, a posteriori - com instrumentos como violão, violino e rabeca - ser diferente: passou a ganhar ares maiores, de gente grande, ave de alto voo.
É uma história conhecida essa do cearense natural do Crato Cego Aderaldo - alcunha do poeta, cantor e improvisador, tanto no Estado quanto no restante do País, devido ao fato de ter perdido a visão quinze dias após a morte do pai. Esse duro golpe, porém, não o impediu de manter a coragem e a força ao longo da vida - uma lição de resiliência.
No último dia 29 completaram-se 50 anos de sua partida. A impressão é de que o tempo passou devagar, sedimentou vagarosa e profundamente uma obra bonita e, ao mesmo tempo, dolorosa de se ouvir. E catapultou Cego Aderaldo àquele olimpiano espaço destinados aos que souberam, com a simplicidade típica dos verdadeiramente grandes, ser pilar para o desenvolvimento da cultura popular cearense.
Itinerância
Em entrevista por telefone, sob tom de reverência, o cineasta cearense Rosemberg Cariry - diretor do documentário "Cego Aderaldo: o cantador e o mito", lançado em 2012 em festivais de cinema do Brasil e cotado para exibição nacional neste ano - rememora feitos do poeta, ajudando na consolidação da dimensão real que o homem representou para seu tempo.
"Cego Aderaldo tornou-se um mito, um arquétipo do artista depositório da herança de um cancioneiro. Passou a ser reconhecido até internacionalmente por isso. Coloco-o no mesmo patamar de Padre Cícero e Lampião. Essa trindade demarca o grande valor da cultura tradicional de nossa história", explica o realizador.
Dentre os momentos que Rosemberg destaca estão a visita do poeta ao Rio de Janeiro em 1949, acompanhado do escritor e jornalista Rogaciano Leite (1920-1969) - "foi um alarde, saiu em todos os jornais da época", diz -; a viagem de Cego à Amazônia em busca do único irmão que considerava vivo, o que o fez conhecer o Acre e países como Peru e Bolívia; e as aventuranças do homem pelo sertão, levando novidades como o cinema, a partir da década de 1930, e notícias de variados lugares.
"Podemos dizer que ele fez esse interessante contato do sertão com o litoral, contribuindo para levar o progresso ao primeiro", sublinha o realizador. "Por sinal, em se tratando de cinema, durante as exibições ele cantava a narrativa dos filmes, que eram mudos, e aquilo despertava grande admiração por onde passava".
De alma para alma
Outro ponto relevante evocado pelo cineasta em seu comentário diz respeito a um dos fatos mais conhecidos da vida de Cego: sua trupe, composta por 24 filhos de criação. Com ela, o artista rodou uma centena de lugares e fez apresentações que, certamente, ficaram marcadas na memória de quem pôde conferi-las.
"Tudo isso faz com que ele represente um lugar de pensar o Brasil. É uma figura muito interessante que, infelizmente, o Ceará esqueceu e eu não entendo o porquê", lamenta Rosemberg. "Um homem de imensa grandeza que, inclusive, tirou o baião da viola, ao contrário dos que pensam que foi Luiz Gonzaga (1912- 1989). O próprio Luiz, certa vez, chegou a dizer numa apresentação: 'O meu baião nasceu da viola desse homem'".
De fato, Cego Aderaldo era indivíduo de causos. Um dos mais conhecidos aconteceu em 1914, quando travou a famosa peleja com o cantador Zé Pretinho. Daí sua fama ter corrido por Quixadá - até hoje há quem diga que Cego é, na verdade, quixadense.
Engano sadio: afinal, "A peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho", cordel concebido pelo poeta cearense Firmino Teixeira do Amaral (1896- 1926), rememora o fato nas terras de lá e deixa tudo com graça e irreverência.
Ampliando o olhar sobre o trabalho irretocável de Cego, Rosemberg poetiza: "García Lorca (poeta e dramaturgo espanhol falecido em 1936) dizia que existiam 'artistas com duende', referindo-se à capacidade que algumas pessoas tinham de comunicar de alma para alma. Cego Aderaldo era um desses".

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