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sábado, 27 de maio de 2017

A tradição semanal permanece nas ruas de Cascavel, Crato, Iguatu e Itapajé

Se na história o comércio fundou as cidades, as feiras livres são semente pulsante da história até os dias de hoje. É quem dá a melhor definição de centro, quando reúne produtos, vendedores e compradores. Porém é muito mais. Para além do negócio está o jeito de vender, promover e pechinchar - há quem diga que nasceram na feira as palavras pechincha e promoção.
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No Interior, a realização da feira livre caracterizava-se por ser um dia festivo, encontro de pessoas, socialização e circulação de dinheiro com os negócios realizados. Havia mais cordelistas, cantadores, sanfoneiros. "A modernização modificou hábitos e costumes", observa o arquiteto e urbanista Paulo César Barreto.
Mas, ainda hoje, a feira é essencialmente heterogênea, além de dinâmica. Não tem classe, não tem cor nem religião. Mas possui um cheiro próprio, um som singular, de múltiplos barulhos em todas as frequências num só momento. Enquanto shopping cheira a loja de perfume, feira livre cheira a rua. Cheiro de fruta, de peixe, de roupa nova, de gente. Passos no calçamento, caixas de madeira molhada sendo empilhadas da ausência do produto que acaba de ser vendido, mas deixou o cheiro do tomate, mandioca, manga. Sacola se abre, caem dentro os legumes, em cima da farinha e do feijão.
A galinha carcareja, talvez vendendo-se ou pedindo socorro, mas denunciando a existência. Moedas tilintam de uma mão a outra. Negócio fechado. Feito cânfora, ervas medicinais invadem as narinas, assim como as raízes, gritando pelo cheiro. Pepaconha, alfavaca, aroeira, camomila, eucalipto, hortelã, macela. Remédios descobertos pelos índios cuja bula é a oralidade e o testemunho dos séculos.
A trilha sonora é o rádio ligado. Duas pilhas somente, para AM e FM. Vem com um cordão que, se quiser, pendura na mão e sai andando e ouvindo. Outros, mais complexos, carregam CD player e entrada para pen drive. A caixa do tamanho de uma maçã, com entrada USB e carga de bateria, gera um volume conforme o gosto dos ouvidos.
Discos de vinil, hoje raros, ainda são encontrados. CDs e DVDs piratas têm para todos os gostos. Filmes "de guerra" e "de Deu", comédias e pra crianças. Num pen drive, do tamanho de um dedo, já vêm com três mil músicas de forró. "Na loja tá de R$ 20. Mas aqui, pra você, tá de R$ 15".
E quem tiver um mínimo de dinheiro já não fica nu de roupas novas. Shorts jeans, saias e blusas no estilo das celebridades. Camisas pê, eme, gê e gegê, branca, preta, colorida e desbotada. Do Bob Marley, Jesus e Nossa Senhora. Calçados para todos os pés e pisadas.
Um trem, que faz quase tanto barulho quanto o original, circula em trilhos que dá pra montar com o filho. Se compra dois, fica ainda mais barato. Uma boneca que aperta e diz, em chinês, "livre estou, livre estou", do filme Frozen, uma aventura congelante, da Disney.
É também lugar de se vender poemas com palavras ou coisas esculpidas em barro, talhadas na madeira, pintadas ou bordadas. O artesão é alma ambulante da feira, não só vende como demonstra ali o jeito de fazer, num ateliê a céu aberto. A venda de rua, presente em todo lugar do mundo, também tem no Ceará suas especificidades. Cordel, xilogravura, renda e telas. Traz, de um lado, um pedaço de sua identidade, e do outro curiosas celebridades. De Bill Clinton a Luiz Gonzaga. E feira é tão essência de povo que os políticos, ao menos uma vez a cada quatro anos, não deixam de dar uma passada e se "misturar".
A feira livre é atrativo até para quem nada quer comprar, só usar os cinco sentidos intensamente. Foi o que fizemos em Cascavel, Crato, Iguatu e Itapajé. Afora o que se vende, é de graça aquilo de mais singular. Nenhum lugar da cidade tem outro comércio igual.

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