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sábado, 27 de maio de 2017

Interior terá dez novos cinemas

Em Juazeiro do Norte e em Sobral, as salas se concentram nos shoppings ( Foto: André Costa )

O Pinheiro Supermercados tem salas de cinema em Quixadá (Cinema Quixadá), Sobral (Cinema Renato Aragão), Limoeiro do Norte (Cinema Francisco Lucena) e Aracati (Cinema Bom Vizinho) ( Foto: Alex Pimentel )
Crato/Iguatu/Quixadá/Sobral. A história do surgimento da sétima arte no Ceará se confunde no município do Crato, na região do Cariri. Em 1911, o italiano Vittorio di Maio inaugurava o primeiro cinema do interior cearense. Antes dessa data histórica, alguns exibidores ambulantes, utilizando um aparelho conhecido como Bioscópio, que funcionava a partir de discos e placas de vidro com gravações de imagens, já circulavam na cidade. Um desses exibidores foi o famoso Luiz Gonzaga de Oliveira, o Gonzaguinha, bisavô do cineasta cratense contemporâneo e professor universitário, Jackson de Oliveira Bantim.
"Antes do Vittorio implantar o cinema, meu bisavô, que era fotógrafo, já exibia os chamados retratos de paredes. Na época, isso em 1885, era uma grande atração. As pessoas se reuniam nas praças, traziam as cadeiras de casa e 'assistiam' àqueles retratos. Vinte e seis anos depois, o italiano implantou o primeiro cinema no Interior, aqui em Crato", explica Jackson.
Cinema mudo
Após inaugurar dois cinemas no Brasil, um em Petrópolis e outro em Fortaleza, Vittorio di Maio instalou em Crato o Cinema Paraíso, cujo primeiro filme exibido foi "Borboletas Douradas". Bantim lembra que, no início, eram projetadas imagens coloridas que chegavam a assombrar a plateia. Com o tempo, vieram os filmes mudos, com atores de gestos exagerados muito maquiados. Ele recorda que a trilha sonora era feita ao vivo, por um pianista ou bandinha de músicos.
O anúncio do cartaz desse e outros sucessos de bilheteria era feito da mesma forma com que se anunciavam os espetáculos circenses da época: palhaço e criançada pelas ruas da cidade carregando o cartaz do dia. Já o auditório era dividido com uma grade, para diferenciar o tipo de ingresso. Quanto mais distante, o ingresso era mais caro, pois, neste tipo de cinema, quanto mais distante da tela, melhor era a visão para os espectadores. Nos intervalos, enquanto as máquinas esfriavam e eram trocados os rolos de fitas, uma banda de música tocava.
O encantamento, porém, ficou apenas na lembrança. A cidade, que já contou com cinco salas de cinema, das quais as mais importantes e duradouras foram o cinema da Rádio Educadora, o Cine Cassino e o Cine Moderno, viu a última exibição na década de 80. "O último filme foi o 'Fuscão Preto'", pontua o cineasta. De lá para cá, a cidade ficou órfão da sétima arte.
No entanto, o projeto "Cinema da Cidade", gerenciado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com a Caixa Econômica Federal, promete resgatar essa tradição. O projeto que contemplou o Estado do Ceará, visa estimular, por meio de convênios com as prefeituras, a implantação de complexos de cinema em cidades com mais de 20 mil e menos de 100 mil habitantes que não disponham desse serviço.
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No Estado do Ceará, atualmente apenas oito municípios possuem salas de cinema: Aracati, Fortaleza, Maranguape, Juazeiro do Norte, Limoeiro do Norte, Maracanaú, Quixadá e Sobral. São cerca de 90 salas, segundo a Secretaria de Cultura do Estado (Secult).
Implantação
Em dez cidades, serão implantadas salas de propriedade pública, com gestão preferencialmente privada. O projeto permite a instalação de salas de cinema, bonbonnière e espaços comerciais e de prestação de serviços. O governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura, pelo Ceará Filmes, um Programa Estadual de Desenvolvimento do Audiovisual e da Arte e Cultura Digital, trabalha na implantação de 20 salas de cinema, duas em cada um dos dez municípios, localizados em dez diferentes regiões do Semiárido.
Para a construção das salas não há parceria com a iniciativa privada, pontua o secretário de cultura, Fabiano dos Santos. Segundo conta, planeja-se a implantação de salas de propriedade pública com gestão preferencialmente privada. O cronograma será definido em breve, explica, no ato do contrato com essas empresas. "Das dez cidades, sete já foram licitadas. Em junho ou julho, o governador Camilo Santana deve assinar a ordem de serviço. Após iniciadas, as obras devem durar cerca de um ano", explica o titular da pasta. Os municípios já licitados são Amontada, Aquiraz, Canindé, Cedro, Crato, Iguatu e Itaitinga.
Fabiano avalia que a iniciativa, em sintonia com as diretrizes da política cultural do Estado, proporcionará aos cidadãos desses e de outros municípios em cada região acesso democrático e a preços populares ao melhor do audiovisual do Ceará, do Brasil e do mundo. "O cinema está na memória afetiva das pequenas cidades brasileiras, muitas tinham salas na década de 70, 80, onde as pessoas iam assistir muitos filmes e isso se perdeu a partir da década de 80. Então esse programa vem com esse objetivo, que é fomentar o cinema. É um programa de grande relevância", destaca o secretário.
Pensando nesse fomento, foi que se deu a escolha das cidades a receberem as salas. "A intenção era justamente contemplar os municípios que não dispunham de cinemas. Após escolhida, a prefeitura tinha que cumprir algumas exigências do edital, como por exemplo, ceder o terreno", acrescenta.
Saudade e esperança
Dois cinemas, Alvorada e Coliseu, funcionaram na cidade de Iguatu, na região Centro-Sul, até a década de 1980. Muitos jovens desconhecem a emoção e o prazer de uma projeção em sala cinematográfica. Agora, os moradores vivem a expectativa de ganhar duas salas que serão construídas em breve. A iniciativa faz parte do programa Cinema na Cidade do Ministério da Cultura, por meio da Ancine, com apoio da Secretaria de Cultura do Ceará (Secult).
Os livros de história registram a chegada do cinema mudo nesta cidade antes da década de 1950, no Cine Teatro Iguatu. Mais tarde, na década de 1960, funcionou também o Cine São José. Por último, há um pouco mais de dez anos, no extinto Shoping Asa Branca, funcionou uma sala de exibição. Entre o passado e o presente, os moradores alimentam novamente o sonho de desfrutar de salas de exibições.
"Há toda uma geração que desconhece a emoção de assistir filme na telona, no escurinho do cinema", observa o professor Francisco de Paula. "Muitas pessoas não têm oportunidade de viajar". Os moradores de mais idade recordam da alegria em assistir aos domingos os filmes em cartaz. "Era a opção para o fim de semana", recorda a aposentada, Marlene Gomes.
César Teixeira, produtor cultural, acredita na viabilidade de cinema nas maiores cidades do Interior e anualmente o Instituto Água Boa promove Mostra de Cinema de Iguatu, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc). O objetivo é formar plateia e oferecer diversão e arte. Recentemente, houve uma programação de Cinema na Praça, por iniciativa de empresas privadas, que lotou todo o espaço para alegria de jovens e dos pipoqueiros.
Cegos protagonizaram
A cidade de Quixadá, considerada por muitos a "Hollywood sertaneja", por ser cenários de muitas produções, possui duas modernas salas de cinema. Elas funcionam no complexo do Pinheiro Supermercado, inaugurado em 2014. Todos os dias há exibições cinematográficas, mas foram necessárias três décadas para a diversão voltar à Terra dos Monólitos, sem muito entusiasmo para as gerações mais jovens. Com a tecnologia digital, a concorrência das TVs por assinatura e até a pirataria, o brilho dos cinemas não é mais o mesmo. Além de Quixadá, o Pinheiro tem cinema em Sobral, Limoeiro do Norte e Aracati
O pesquisador João Eudes Costa, um dos poucos a lembrar dos tempos áureos da sétima arte, recorda ter sido Quixadá a majestade da região. Teve três cinemas funcionando ao mesmo tempo. Eram os Cine São José, 13 de Maio e Cine Yara. Uma época onde as exibições cinematográficas eram a principal diversão. Chegava inclusive aos menos favorecidos economicamente. Quem não possuía muito dinheiro tinha o "Cine Poeirinha" como opção.
O fascínio e a familiaridade de Quixadá com esse tipo de diversão eram tão grandes que um cego fez o primeiro projetor "falar". Era Adolfo Lopes da Costa, o Mestre Adolfo. Explica melhor João Eudes Costa: o padre Luiz Braga Rocha, um dos pioneiros do cinema no interior do Ceará, havia adquirido um novo projetor para o Cine Paroquial.
Outro cego, mais famoso, Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, também fazia proezas no mundo do cinema. Pela sua influência nas cantorias, conseguiu de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo, um projetor. Como a máquina não tinha som, ele mesmo narrava as cenas do filme que exibia nas andanças pelas comunidades, a "Paixão de Cristo". Quem assistia ficava impressionado. No início ele tinha um de seus muitos filhos como guia.
Fique por dentro 
Cada complexo terá duas salas de projeção
O projeto Cinema da Cidade, anunciado pelo governador Camilo Santana para o Ceará, prevê um aporte total de R$ 32 milhões somente no Estado. Além do Ceará, que está em processo mais avançado, o Estado do Rio de Janeiro também foi contemplado com o mesmo programa. Estima-se investimento de R$ 3,2 milhões para cada município cearense. Cada Complexo Exibidor é composto por duas salas de cinema, com capacidade cada de uma de 210 lugares e de 105 lugares.

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